A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) publicou, nesta sexta-feira (16), o 3º Relatório Parcial de Monitoramento do seu sandbox regulatório em inteligência artificial, avaliando como as empresas Synapse AI, Prevvine Tecnologia e Metatext tratam dados pessoais em sistemas de IA, no terceiro dos seis ciclos de testagem previstos pelo projeto-piloto.
O que você precisa saber
- A ANPD publicou, nesta sexta-feira (16), o 3º Relatório Parcial de Monitoramento do sandbox regulatório em inteligência artificial, referente ao Ciclo 3 de testagem com Synapse AI, Prevvine Tecnologia e Metatext.
- Na avaliação ética pelo framework baseado em recomendações da Unesco, de 0 a 100 pontos, a pontuação da Synapse subiu de 45 para 68, e a da Prevvine, de 60 para 63.
- Os testes da Prevvine encontraram alucinações, referências inexistentes e links quebrados no sistema de verificação bibliográfica da sua plataforma, cuja maturidade tecnológica caiu de TRL 7 para TRL 6.
- A Metatext ainda não executou os testes técnicos da sua solução GuardionAI: o Ciclo 3 ficou concentrado em mapear arquitetura e documentação, e os testes de proteção de dados e de alertas de segurança ficam para o Ciclo 4.
- Nenhuma das três soluções recebeu avaliação plena: a ANPD classificou as de Synapse e Prevvine como aceitáveis apenas "com condicionantes", pendências que seguem em aberto para o próximo ciclo.
O que é o sandbox regulatório
O sandbox regulatório em inteligência artificial é um projeto-piloto da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) que cria, segundo a metodologia publicada pela própria agência, um "ambiente regulatório experimental, controlado e supervisionado" para testar sistemas de inteligência artificial que tratam dados pessoais, com o objetivo de promover inovação responsável, transparência algorítmica e conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).
Pelo Edital de Convocação nº 2/2025, a ANPD selecionou três participantes: a Synapse AI, com o Trajetto, sistema de gestão de fluxo de pessoas em transportes ferroviários baseado em integração de dados em tempo real; a Prevvine Tecnologia, com a STAiDOC, ecossistema de inteligência artificial médica com modelos de linguagem personalizados para o contexto brasileiro; e a Metatext, com a GuardionAI, plataforma de segurança para IA projetada para mitigar riscos em sistemas de agentes autônomos e IA generativa.
A testagem é supervisionada com apoio técnico do Centro de Inteligência Artificial e Aprendizado de Máquina da Universidade de São Paulo (CIAAM/USP) e está dividida em seis ciclos, cada um com três fases: a Fase A, de pré-teste; a Fase B, de teste; e a Fase C, de pós-teste. O relatório publicado nesta sexta-feira (16) cobre o Ciclo 3.
| Quem publicou | ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) |
|---|---|
| O que é | 3º Relatório Parcial de Monitoramento do Sandbox Regulatório em IA |
| Quando | Sexta-feira, 16 de outubro de 2026 |
| Empresas avaliadas | Synapse AI, Prevvine Tecnologia e Metatext |
| Próxima etapa | Ciclo 4 de testagem, sem data divulgada |
O que o terceiro relatório mostra
Na Fase A do Ciclo 3, a ANPD aplicou a cada participante um framework de avaliação ética baseado em recomendações da Unesco, dividido em sete eixos (da centralidade da dignidade humana e dos direitos fundamentais à proporcionalidade e necessidade), que somam 100 pontos. Com base nesse framework e nos testes técnicos, a agência classifica cada solução por risco inerente e residual, e emite um parecer.
Na Synapse, os testes verificaram o uso de protocolo de segurança na comunicação auditada com o banco de dados e não identificaram indivíduos no processamento de imagens, nas condições examinadas. A pontuação da solução no framework passou de 45 para 68 pontos, e o parecer técnico classificou a Trajetto como "suficiente com condicionantes", com risco inerente alto e residual médio. O relatório lista pendências em API e fluxos externos, identificação indireta, proteção da aplicação, acessibilidade e evidências de transparência.
Na Prevvine, o relatório registra o restabelecimento da integração entre a STAiDOC e a plataforma HarpIA, que permitiu aplicar 30 vinhetas clínicas, além de ajustes na resposta da API e na apresentação de referências. Os testes também encontraram alucinações, referências inexistentes e links quebrados no sistema de verificação bibliográfica da plataforma, chamado NTAV no relatório, o que levou a ANPD a reduzir a maturidade tecnológica desse componente de TRL 7 para TRL 6. A pontuação da Prevvine no framework passou de 60 para 63 pontos, com parecer "favorável com condicionantes", risco inerente crítico e residual médio.
Já na GuardionAI, da Metatext, o Ciclo 3 não chegou a executar testes técnicos: a ANPD e a empresa concentraram o período em aprofundar o entendimento da arquitetura, dos fluxos de dados e da documentação da solução, e em preparar dois testes, de proteção de dados pessoais e de envio de alertas à equipe de segurança, que ficam para o Ciclo 4. O levantamento normativo aplicável à solução também foi ampliado, de cinco para 58 diplomas legais.
Como evoluiu a pontuação de cada empresa desde o Ciclo 2
O relatório mede a evolução de duas das três participantes comparando a pontuação do framework de avaliação ética entre o Ciclo 2 e o Ciclo 3: a Synapse avançou 23 pontos, e a Prevvine, três. Em nenhum dos dois casos, porém, o avanço resolve as pendências listadas: o parecer técnico mantém as duas soluções como aceitáveis apenas "com condicionantes".
Já a Metatext não tem pontuação no framework a comparar neste ciclo: os testes técnicos da GuardionAI, que alimentariam essa nota, ficaram para o Ciclo 4, e o Ciclo 3 avançou apenas no mapeamento documental e normativo da solução.
| Empresa (solução) | Pontuação no Ciclo 2 | Pontuação no Ciclo 3 | Parecer da ANPD |
|---|---|---|---|
| Synapse (Trajetto) | 45 | 68 | Suficiente, com condicionantes |
| Prevvine (STAiDOC) | 60 | 63 | Favorável, com condicionantes |
O que a ANPD pede para o quarto ciclo
Para o Ciclo 4, o relatório prioriza, para a Synapse, a apresentação de evidências de transparência na interface, de acessibilidade, do inventário completo de API e de terceiros, da mitigação da reidentificação indireta e da efetividade dos controles de segurança da aplicação.
Para a Prevvine, pede o exame dos resultados das vinhetas clínicas e o cumprimento das condicionantes relacionadas a políticas documentais, explicabilidade, proteção criptográfica, segurança da aplicação, continuidade operacional diante de uma eventual indisponibilidade do PubMed, prazos de avaliação e aperfeiçoamento da supressão de dados pessoais.
Para a Metatext, recomenda a execução dos testes de proteção de dados pessoais e de geração de alertas de segurança já preparados, com avaliação da supervisão humana, da rastreabilidade e da explicabilidade das decisões da GuardionAI, além do esclarecimento dos fluxos internacionais de dados e das responsabilidades dos agentes envolvidos.
De forma geral, o relatório também recomenda complementar o inventário de dados, integrações e terceiros das três soluções, registrar e versionar modelos, parâmetros e interfaces, e atualizar as matrizes de maturidade tecnológica à luz das evidências reunidas no Ciclo 3.
Por que importa
Os números deste terceiro ciclo mostram um padrão que vale para qualquer empresa que trate dados pessoais com inteligência artificial: mesmo com pontuação em alta, nenhuma das três soluções testadas pela ANPD recebeu avaliação sem ressalvas. A Synapse e a Prevvine melhoraram a nota, mas seguem classificadas como aceitáveis "com condicionantes"; a Metatext ainda nem chegou à fase de testes técnicos da sua solução.
Para quem usa ou planeja usar inteligência artificial em marketing digital ou em outro produto que toca dados de clientes, o sandbox da ANPD funciona como um retrato antecipado do que a fiscalização observa: governança documentada não substitui controle verificado na prática, e pontos como rastreabilidade de API, explicabilidade e proteção contra reidentificação seguem entre os mais difíceis de comprovar.